A Pedagogia

February 25th, 2010 Leave a comment Go to comments
A Pedagogia Vivencionista
A escola como ela é hoje não motiva alunos, professores, diretores e nem mesmo pais. Ela segue um determinado modelo que não gera interesse pelo aprendizado e não incentiva inovações. As aulas são pré-planejadas, sem a participação do aluno e, muitas vezes, nem mesmo do professor. Com aulas assim, o resultado fica limitado.

Para mudar esse desinteresse, devemos dar ao aluno a liberdade de escolha, através da qual se cria um interesse pelo aprendizado e, com isso, aprende-se mais e melhor.

Tendo como base a liberdade de escolha e a busca pela felicidade, a Pedagogia Vivencionista desenvolveu-se para permitir que a vida entre em sala de aula por todos os meios possíveis.

Conectando a escola ao mundo, ensinamos aos alunos através da vivencia real de problemas e empreendimentos reais. Estamos falando em dar liberdade para o aluno criar, e deixar que ele descubra o que deve aprender para atingir suas metas.

A conduta do professor (e dos pais)

Como lidar com o aluno de forma a dotá-lo com características que se tornarão os alicerces para o seu sucesso no futuro?

Pense como criança. Quais são os seus interesses? A criança precisa brincar, rir, sonhar, aprontar, testar os adultos, imaginar, construir, desconstruir, investigar… Precisa de tudo isso e do respeito dos pais e professores pelos seus sentimentos e ações.

Elas são seres humanos completos e complexos, possuem sentimentos tal como um adulto. Por mais que, para nós, as situações possam parecer bobas e irrelevantes, para as crianças elas são muito importantes.

Respeitar a infância é fundamental. Esse respeito não se trata de entregar as respostas para as crianças ou fazer tarefas simples por elas. Trata-se de ter paciência com as suas limitações, incentivar o seu desenvolvimento, a sua busca pelas respostas e até mesmo pelas próprias perguntas.

A criança pode e deve ser o agente ativo de sua aprendizagem. Para isso é preciso que ela tenha o poder de escolha, que pergunte, responda, que avalie, corrija, tente novamente, que aprenda.

A metodologia passo a passo e os projetos vivencionistas
Muito se tem falado ultimamente sobre o ensino através de projetos. Podemos encontrar usos que variam desde o envolvimento de toda a escola em datas comemorativas até escolas mais arrojadas que os usam como base de seu desenvolvimento pedagógico. Grande parte desses projetos, porém, não dão ao aluno muita liberdade: tanto o tema quanto o andamento dos projetos são determinados pelos adultos, e as crianças continuam limitadas a aprender somente aquilo que lhes é passado.

Para que os alunos estejam presentes de corpo e alma durante as aulas, é preciso, antes de mais nada, que os projetos despertem a motivação dos alunos e que tragam consigo um significado – o aluno precisa querer aprender e entender porque está sendo feita aquela atividade.

Os alunos, quando impulsionados por seus próprios anseios, adquirem motivação ao se depararem com problemas, necessidades e curiosidades, e constroem eles mesmos o conhecimento necessário para resolvê-los ou saná-los.

Como colocar uma educação assim em prática?

O nome “Pedagogia Vivencionista”, usado para nomear nossa metodologia, vem do fato de que, através dela, deixamos a vida entrar em sala de aula para que os alunos possam vivenciar problemas e situações reais e, através deles, desenvolver seu aprendizado.

Cada projeto vivencionista segue uma sequência de etapas, cada uma com objetivos definidos:

Fase I – Escolha do Tema – Diferente do que muitos pensam, o tema a ser estudado trará a abordagem de assuntos variados. Por isso ele pode ser escolhido pelas crianças.

Esta escolha acontece através da exposição de materiais diversos, em que as crianças exploram um kit de materiais que as apresente um mundo maior do que o universo infantil que as cerca. Conhecendo um novo mundo, as crianças sugerem os temas que chamaram a sua atenção e que gostariam de estudar. Tendo uma lista com todos os temas sugeridos, começa-se um debate em que cada aluno defende a sua idéia. As crianças mostram-se abertas a mudar suas escolhas caso outro tema as interesse mais e, por isso, depois dessa defesa, é feita uma votação através da qual se decidirá qual o tema do novo projeto.

Fase II – Exploração do tema – A fim de adquirirem um repertório mínimo a respeito do tema escolhido, as crianças desenvolvem um “mapa do projeto”, que é um registro de todas as suas questões e hipóteses sobre o tema. Esse mapa serve como uma lista de tarefas para as pesquisas iniciais: deve-se deixá-los encontrar meios para responder suas próprias perguntas. Tendo conhecimento suficiente sobre o tema escolhido, os alunos já estarão prontos para decidir aonde querem chegar com o projeto.

Fase III – Empreendimento – Esta é a fase em que o projeto realmente acontece. A atividade de conclusão é o objetivo final do projeto e, por possuir uma maior complexidade, os alunos deverão desenvolver uma série de atividades e experimentos para conseguir concluí-lo. As crianças já decidiram o seu objetivo e estão abertas a desenvolver as atividades necessárias para chegarem aonde querem. Com a ajuda do professor, elas analisam os caminhos a serem tomados e o planejamento de suas atividades. As situações não são criadas pelo professor: são necessidades genuínas dos projetos que geram oportunidades de ensino de diversas áreas do conhecimento. O término do projeto ocorre quando a atividade de conclusão é realizada.

Projeto Peixes

Para mim, esse foi um dos projetos vivencionis­tas mais marcantes da turma. As crianças escolheram, por meio de votação, estudar “peixes”, algo que chamou muito a atenção principalmente pela unanimidade da turma. A justificativa dos alunos para a escolha foi que eles con­sideram esse animal um dos mais legais, o que os deixou curiosos para pesquisar e descobrir mais.

Uma vez definido o tema, começamos a trabalhar na execução do mapa do projeto. Lançamos juntos várias questões e hipóteses, sempre a partir da percepção das próprias crianças. A curiosidade que tinham pelos peixes ficou clara através das colocações que eles faziam e em cada nova dúvida ou pesquisa que propunham nessa eta­pa do projeto.

Em seguida, foram oferecidos ao grupo materiais dos mais diversos. Dentre todos, os mais utilizados foram revistas técnicas/específicas sobre pesca e livros que tratam de animais e conhecimentos gerais.

Ao mesmo tempo, com a ajuda dos pais, as cri­anças buscaram e trouxeram para a escola várias infor­mações sobre particularidades da vida, dos hábitos e do aspecto físico dos peixes, tais como habitat, alimentação, revestimento do corpo, etc.

Uma das perguntas do mapa que mais as intriga­va dizia respeito ao corpo dos peixes. Como as crianças nessa idade ainda necessitam e se interessam muito pelo concreto, nada mais interessante para resolvê-la do que ter um peixe de verdade em sala de aula. Foi isso o que aconteceu: trouxemos um peixe direto da feira para a es­cola e, com ele ao alcance de suas mãos, as crianças puderam observá-lo, tocá-lo e analisá-lo.

Desse experimento, elas tiraram várias informa­ções: ao perceberem a textura do peixe, descobriram que aquilo se tratava de escamas e puderam observar que era diferente de outros animais, que tinham pelos ou penas. Além disso, as crianças queriam saber como os peixes respiram debaixo d’água e viram que, ao invés de nariz, eles usam as guelras.

A cada dia e a cada etapa cumprida, a turma demonstrava mais empenho. Era muito divertido, contagiante e gratificante vê-los trabalhando em equipe na sala de aula e buscando ajuda de parentes e amigos pa-ra que nossas metas fossem cumpridas da melhor forma possível.

Um dos pontos altos deste projeto foi a escolha da sua atividade de conclusão: a compra de um aquário para que fosse possível criar um peixinho de verdade, e mantê-lo como mascote da turma.

À medida que essa decisão tomava corpo, tivemos muitas conversas e utilizamos vários outros processos de votação para que, em democracia, pudéssemos decidir cada questão a respeito da conclusão, como a cor, a raça, o sexo e o tamanho do peixe, entre outras.

A turma optou por um peixe vermelho. Assim, uma das atividades de pesquisa preliminares nessa fase foi a de descobrir quais os peixes dessa cor que existem em água doce. O tamanho também seria um fator importante a ser observado, já que o peixe eleito teria de caber em um aquário de dimensões aceitáveis para os espaço disponível na escola. Aqui, aprofundamos nosso estudo em matemática para calcular quais medidas de aquário se­riam aceitáveis para o espaço que tínhamos disponível.

Principalmente para responder a essas dúvidas e para escolherem o peixe adequado, as crianças resolveram fazer uma visita à loja de animais. Para isso, foi necessário pedir autorização e o dinheiro necessário para o transporte para os pais. O uso da linguagem escrita foi trabalhado com elas enquanto criavam o bilhete com o pedido de au­torização e a comunicação oral foi desenvolvida quando os alunos precisaram entrar em contato com o motorista que os levaria até a loja.

Lá, os alunos conversaram com um responsável, que os indicou qual peixe poderiam adquirir que fosse vermelho e macho, características que eles já haviam de­cidido em votação. Os alunos puderam também relacionar os itens que teriam que comprar e seus preços. Assim, pudemos calcular o valor que seria necessário para a compra. Através dessa atividade, trabalhamos a matemática e a linguagem quando relacionamos em uma lista o nome dos materiais, seus preços e calculamos o valor total.

De volta à escola, interações entre os alunos em classe foram marcantes, baseadas essencialmente em discussões sobre como conseguir o valor necessário para a compra do aquário e do peixinho-mascote.

Quanto a isso, os alunos encontraram na culinária a solução do seu problema e, conforme sugerido por uma das crianças da turma, eles decidiram fazer gelatina para vender.

Primeiro, fizemos um teste para ver quantas por­ções conseguiríamos fazer com uma receita de gelatina para calcularmos quantas teríamos que vender. Para isso, fizemos uso da matemática concreta: usando pequenos materiais que representassem os preços que descobrimos em nossa visita, calculamos quantas gelatinas deveríamos vender pelo valor de 1,00 real.

Depois, as crianças organizaram a venda. Essa atividade deixou a turma toda, inclusive a professora e fun­cionários da escola, muito empolgados devido à grande satisfação de ver o sucesso do empreendimento das cri­anças: os pais pediram mais gelatinas e eles tiveram que organizar um segundo dia de vendas, o que os rendeu o dobro do valor que eles precisavam.

Devido ao maior valor que conseguimos, pudemos comprar dois peixinhos de cores diferentes – e não apenas um –, um aquário maior e todos os itens pesquisados que seriam necessários para a manutenção desses animais.

Chegava então o momento de montar o aquário. O empenho e a animação dos alunos durante os prepara­tivos e a montagem mais do que surpreendeu: emocionou a todos. Particularmente, confesso que foi uma das ativi­dades mais gostosas, com resultado mais recompensador que experimentei até então. O brilho no olhar das crianças não deixava esconder o encantamento com as atividades.

Enquanto professora, acompanhei com grande prazer a evolução daquelas crianças, tão pequenas no ta­manho, mas ao mesmo tempo tão desenvolvidas e, por muitos momentos, tão maduras para a idade!

Até as crianças mais tímidas desenvolveram-se muito na arte de se comunicar, através da necessidade do uso de telefone, carta, email e até por fax durante os momentos em que precisamos pesquisar sobre os peixes, sobre os preços e materiais necessários, além dos pedi­dos de autorização para os pais e diretoria da escola.

Vale salientar aqui a inestimável colaboração de todos os pais. A intensa participação deles, com ações concretas e principalmente pelo apoio que deram a seus filhos, foi de extrema importância para o excelente resul­tado alcançado.

Por meio deste projeto, pudemos experimentar de maneira bastante clara os ideais da ideologia vivencionista: não se ater apenas à formação imediata e ao desen­volvimento de atividades puramente acadêmicas, mas de trabalhar para também impactar, direta ou indiretamente, na preparação dessas crianças para uma atuação mais sustentada no futuro.

Valores importantes puderam ser evidenciados nessas atividades, como o autoconhecimento da turma enquanto equipe, e de cada aluno como membro de um grupo, desenvolvendo um forte senso de colaboração e de trabalho em equipe que será fundamental para o seu futuro profissional.

De forma objetiva, a classe experimentou conhecimentos complementares importantes, dentre eles a reflexão sobre os diversos estilos de comunicação, afinal tinham objetivos muito claros a atingir, fosse na venda de suas gelatinas, fosse na pesquisa de preços e materiais. Desenvolveram também o exercício e a compreensão das diferentes formas de liderança e das responsabilidades de se tomar decisões em grupo, aprendendo a respeitar a di­versidade de opiniões e as diferenças. As crianças mani­festaram uma grande maturidade ao conseguir decidir em grupo questões como a escolha do peixe.

Particularmente, fiquei bastante satisfeita com os objetivos que a turma alcançou com esse projeto, pelo as­pecto da formação escolar e também sob a ótica do de­senvolvimento de competências pessoais e interpessoais de comunicação, pela dinamização do grupo/classe e pela intervenção criativa e inovadora de cada um dos alunos.

Juliana Leite

Professora de educação infantil

O professor vivencionista

Na proposta vivencionista, quebramos um tabu gigantesco: o de que não há educação sem planejamento. O professor que trabalhe com essa pedagogia deve entrar em sala de aula somente com a vaga idéia do que fará baseado na atividade de conclusão decidida pelos alunos. No entanto, ele deve ter em mente que os caminhos podem mudar caso algum aluno tenha outra idéia e os outros resolvam segui-lo.

Para que o ensino possa acontecer assim, o professor deve ter claramente todos os seus objetivos na ponta da língua e, quando houver oportunidade, desenvolvê-los e aprofundá-los com as crianças.

É preciso que o professor tenha confiança na vida e perceba que o conhecimento humano surge de necessidades básicas e está presente na maioria dos obstáculos que terá de enfrentar com as crianças

Empreendedorismo, necessidades e oportunidades

Empreendedores são aqueles que realizam feitos e constroem um cenário necessário para a conquista de seus objetivos, criando oportunidades, levantando recursos, articulando e se superando. Os benefícios de uma pessoa com perfil empreendedor não se limitam somente à esfera profissional, abrangendo também a vida como um todo.

Dentro da nossa proposta vivencionista, o empreendedorismo é ao mesmo tempo método e disciplina. O projeto vivencionista como um todo é um empreendimento planejado, desenvolvido e concluído pelas crianças.

Esse empreendimento cria necessidades que são, na verdade, oportunidades de aprendizagem que devem ser aproveitadas para que o aluno aprenda. Abre-se, através desse empreendimentos, uma importante porta para que os conteúdos, exigidos ou não pelo MEC, possam entrar e compor o ensino.

Sobre o autor

Marcelo Rodrigues foi um menino atento e curioso. Andou e falou antes de 1 ano de idade e logo mostrou grande vontade de explorar os ambientes abrindo sozinho as portas dos armários mais baixos, o que exigia grande atenção e energia de seus pais.

Ainda pequeno, administrava seu laboratório no fundo do quintal, onde produzia grandes quantidades de líquidos coloridos diversos, meticulosamente armazenados em embalagens velhas de xampú. Nessa mesma etapa da infância, desenvolveu um amplo estudo sobre as formigas do quintal, montando sozinho um formigueiro em um aquário vazio, alimentando as formigas com certo exagero enquanto observava todo o desenvolvimento dos túneis e salas construídos por esses pequeninos e interessantes animais.

Junto com seu melhor amigo, tirou o sossego da vizinhança ao explorar, sem convite,  os telhados, quintais e jardins das casas próximas, descobrindo coisas interessantes sobre a vida de seus vizinhos.

E foi assim que o menino Marcelo cresceu, sempre com um olhar curioso sobre o que o cercava, fossem os hábitos de seus vizinhos ou as formigas no quintal.

A constante tentativa de entender o mundo desde a infância lhe serviu de base para grandes ideias e conclusões que perduraram até a vida adulta.

  1. Claura
    October 8th, 2010 at 00:10 | #1

    I read about the fish project with a lot of interest. Of course, I would have loved – had I got the chance to have learnt this way myself, so much freedom, yet so much motivation to accomplish the project. I am sure the kids learnt a lot and of course, I believe they will never forget what they’ve learnt, because there was emotion involved, the fact that they really experienced a real fish and had the opportunity to touch and feel it. (I can only picture the excitment it generated) The learning opportunities with this project were so many and very well exploited by the teacher juliana Leite.

    Well done teacher!! and well done Kids!!

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